O filme, a moda, a traição e o assassínio por Lisa Mira

Era de esperar que num filme de Ridley Scott, com um fantástico “concentrado” de talentosos
artistas/ atores, estarmos perante uma obra-prima.

Baseado na história verídica da família Gucci e inspirado na obra de Sara Gay Forden com o mesmo nome, A Casa de Gucci apresenta-nos o drama vivido nas décadas de 70 e 80 pelos fundadores desta marca de alta-costura, com excelentes performances, um fantástico guarda-roupa e um argumento que nos faz lembrar os melhores filmes sobre a máfia italiana.

De destacar ainda a banda sonora que viaja entre as mais icónicas peças da música clássica aos êxitos da música disco e pop dos anos 70’s à atualidade. São 157 minutos envolvidos em músicas cuja letra faz todo o sentido em relação à ação que se desenrola.

Tudo está pensado ao pormenor para se destacar como um trabalho de mestre.
A caracterização de Jared Leto como o inútil “estilista” Paolo Gucci, careca, gordo, envelhecido e patético, o seu sotaque bem trabalhado e o seu desempenho cria um personagem inesquecível. Aliás, Leto já nos havia provado a sua genialidade em ”O Clube de Dallas”, “Esquadrão Suicida” e “A Barreira Invisível” que, juntamente com Lady Gaga (Patrizia Reggiani) contribuem para um filme memorável.

Gaga surpreende mais uma vez pela sua versatilidade. Uma verdadeira artista no seu todo. Destaque-se os momentos dramáticos e o seu empenho em transmitir as emoções para o espectador. A história é sobre a família Gucci, mas é Patrizia Reggiani, uma outsider com raízes humildes, que sobressai pela sua beleza e elegância e pela sua ambição e luta pelo poder e riqueza do império Gucci.

Apesar da sua ignorância inicial, Patrizia demonstra desde o primeiro momento grande inteligência e meticulosidade no planeamento da sua ascensão. Um encontro intencional com Maurizio, uma visita à loja do tio Aldo Gucci aproveitando o facto de ele se encontrar no local, tudo tem um objetivo. Todas as ações de Patrizia são feitas com determinação, desde o mais pequeno “inocente” comentário até ao básico gesto de partir as nozes. Ridley Scott consegue convencer-nos que estamos perante uma pessoa meticulosa que tudo fará para conseguir os seus objetivos.

É essa ambição desmedida que começa a desencadear no legado da família uma imparável espiral de traição, destruição e vingança que culmina no assassínio do seu marido Maurizio (Adam Driver).

O filme conta ainda com outros gigantes da 7ª arte. Al Pacino interpreta o tio de Maurizio, Aldo Gucci, Jeremy Irons o pai e Salma Hayek é a cartomante que aconselha Patrizia nos seus momentos mais desesperantes e se torna sua cúmplice.

O mundo da moda é representado em primeiro lugar como um negócio elitista, priorizando o lucro e sentido de oportunidade em detrimento da arte e da criatividade. É abordado o tema da contrafação e venda ilegal de produtos de luxo e a conivência das grandes marcas neste negócio paralelo.

Não podemos esperar ver apenas um filme sobre moda. A Casa de Gucci é muito mais. É sobre o mundo de negócios, os dramas de uma família, a ambição, o desespero e as artimanhas para conseguir vencer e manter os estatutos e o património conseguido.