Mas quem matou Dom Quixote?

Da brilhante mente de Terry Gilliam, chega-nos mais uma hilariante e incrivelmente alucinante aventura.

Aventura onde perdi a conta do número de vezes que quis dar um estalo e apertar o pescoço à personagem Toby, devido ao seu extremo egoísmo. E senti uma forte empatia para com Javier, tanto na alegria como na tristeza.

O Homem que Matou Dom Quixote” é baseado no romance épico de Cervantes e apresenta o personagem Dom Quixote de La Mancha numa versão moderna, porém fiel à obra original.

Nesta adaptação, acompanhamos Toby (Adam Driver), um cínico e egoísta realizador. Todos o toleram porque acreditam que é um génio. Toby está a trabalhar numa adaptação de Dom Quixote, mas devido a problemas técnicos na sua adaptação, começa a duvidar se consegue ou não terminar a mesma.

Por obra do destino, durante uma reunião de equipa num restaurante, Toby cruza-se com Cigano (personagem interpretada por Óscar Jaenada) que lhe vende um DVD muito peculiar: o filme que Toby filmou há dez anos atrás, numa pequena cidade espanhola como projeto de final de curso. Por coincidência, também este trabalho tinha sido uma adaptação à obra de Dom Quixote. 

Tal acontecimento, inspira-o a visitar as pessoas que haviam participado neste seu projeto, descobrindo que, do ponto de vista dos habitantes da pequena cidade, o filme teve um impacto negativo nas suas vidas.

Começa uma nova aventura com Toby (à esquerda) e Dom Quixote (à direita)

Angelica, a sua Dulcineia (Joana Ribeiro) viajou para Madrid com o sonho de se tornar numa estrela de cinema e acabou por se tornar numa acompanhante. Pequeno Pedro (Jorge Calvo), o seu Sancho Pança, morreu de alcoolismo e Javier (Jonathan Pryce), o sapateiro que interpretou Don Quixote, enlouqueceu, acreditando ser o verdadeiro Dom Quixote de La Mancha.

Perante esta “maldição”, Toby permanece incrédulo e decide procurar Javier.

O reencontro entre os dois, rapidamente se torna numa sequência catastrófica de eventos. Javier está tão perdido na sua loucura, que vê Toby como o seu fiel escudeiro, Sancho Pança.

Agora, reunidos passados 10 anos, Dom Quixote e Sancho partem para uma incrível aventura, onde enfrentam o Cavaleiro dos Espelhos. Vão ao encontro de Angélica, a Dulcineia de Toby, desafiam o magnata russo Alexei Miiskin (Jordi Molla) e têm vários episódios com o Cigano, que aparece, como se fosse o Gato de Cheshire para guiar Toby, por diferentes obstáculos.

É também uma aventura onde a linha que separa o que é real do que é imaginário, fica cada vez mais fina à medida que a história avança, começando a colocar-se em causa a sanidade do próprio Toby. É quase como se a loucura fosse contagiante.

Os gigantes preparam-se para atacar os nossos heróis

O duo principal tem imensa química. A disparidade entre personalidades e estados de espírito opostos, criam interações muito interessantes. Por um lado, temos uma fenomenal representação de Dom Quixote por Jonathan Pryce, que age em conformidade com os costumes do passado. É altruísta, apesar de estar insano. Em oposição, Toby, interpretado por Adam Driver,  é egoísta e está sempre focado em si e nas coisas que quer, disposto a sacrificar os outros para se pôr a salvo.

O Homem que Matou Dom Quixote, é uma agradável experiência fora da caixa que, até quem não está familiarizado com a personagem, vai poder desfrutar.

Nem parece que demorou cerca de 25 anos para ser concluída.