Entrevista aos atores de “Operação Maré Negra”

Operação Maré Negra apresenta uma realidade muito comum na América do Sul, mas que era desconhecida do grande público europeu: o uso de semi-submersíveis no tráfico de estupefacientes. Mais precisamente o caso de um semi-submersível que atravessou o Atlântico para ser capturado na península ibérica.

A produção da série arrancou enquanto o caso ainda estava a chegar aos tribunais e antes da publicação do livro “Operação Maré Negra” do jornalista galego Javier Romero. Assim, havia espaço para se inspirar no caso, dando asas a muita liberdade criativa. Deste modo, o que poderia ter sido um thriller superficial de perseguição policial, transformou-se num retrato de algumas faces do lado humano do tráfico de droga, mantendo a tensão e a adrenalina do género policial.


Aléx González encontrava-se a filmar com os produtores Javier Cabral e Mamen Quintas quando soube do caso. Passado um ano, convidaram-no para interpretar o papel do ex-pugilista galego que pilotou o semi-submersível durante a travessia. Inicialmente prendeu-se muito aos factos e ao piloto real, Agustin Alvarez. Tentou ver vídeos, fotografias e informações acerca deste. Por um lado havia [na altura] pouca informação acerca dele, e por outro lado a necessidade de fazer mais com o personagem.

Em primeiro lugar procurou não julgar o personagem, e compreender as suas motivações. “Há a ambição e a ganância, mas principalmente uma falta de afetos e a procura do reconhecimento das suas capacidades. E nisto encontra-se a atravessar o Atlântico como Magalhães ou Colombo com outros dois personagens, e a evitar a polícia portuguesa e a Guardia Civil, E é aqui que descobre uma força interior que desconhecia, uma determinação, a fazer algo horrível.”

No caso de polícia, quem acompanhava Alvarez eram dois velejadores equatorianos. Durante a escrita dos guiões, estes foram convertidos em Angelito, um homem do tráfico colombiano, e Walter, um mecânico brasileiro que constrói submarinos no Amazonas.

“A história foi inspirada nos acontecimentos reais, mas não é um retrato fiel do que se passou. Os argumentistas e a produção tiveram toda a liberdade criativa para que a história seja real em si mesma” segundo David Trejos o ator que interpretou Angelito.

“Para este personagem dei-me autorização para o encontrar através de muitas coisas do meu contexto em que cresci e que faz parte deste mundo. Pensar que Angelito se comporta como esta ou aquela pessoa que conheço. Há muito da minha criatividade, mas imenso faz parte das minhas memórias de adolescente, de amigos ou conhecidos que fazem ou fizeram parte deste mundo”. Principalmente, segundo David, foi sentir quem é este personagem e permitir-se vivê-lo na selva ou dentro do submersível, tal como ele  é.

“Eu não o conhecia, li um pouco acerca da história e fiquei chocado. Eles são muito corajosos, conseguem imaginar atravessar o Atlântico num submarino artesanal com  espaço reduzido… tem que  ter coragem” disse Leandro Firmino mais conhecido do público português como o Zé Pequeno de A Cidade de Deus “a ganância é assim mesmo. As pessoas seduzem-se pelo dinheiro rápido. […] pode estar a passar por uma questão

Quando recebeu o papel, foi como um presente. Na sua vida viu muitos casos destes onde jovens de 14, 15 ou 16 anos armados a vender droga. Pertencem a famílias pobres, sem estrutura, que contribuem para que esses jovens acabem por ceder e entrar no mundo do tráfico de droga […] há um outro lado da ganância, um lado mais político e económico e empresarial que também beneficia com a questão do tráfico de drogas.”   

Porém a história e motivações do  seu  personagem, Walter, são muito diferentes dos de Nando e Angelito. Este mecânico trabalha para os traficantes pela sua sobrevivência e da  sua família. É um trabalho. Walter não se envolve diretamente no tráfico, tal como não consome drogas. Os acontecimentos trágicos, que o levam a ser colocado dentro do submarino contra a sua vontade, nada têm a ver consigo “Isso acontece. Nesse mundo, nos bastidores do tráfico de drogas, está sempre a acontecer.

Segundo as palavras do ator, “Eu mal tive tempo para me preparar, porque saí de um trabalho no Uruguai direto para a Galícia para iniciar as filmagens. O que foi bacana, é que eu, Álex e David ficamos três ou quatro dias lendo as principais cenas com Daniel Calparsoro. Ele ajudou bastante. Perguntava-me o que é que esse homem que vive nesse meio, o que você acha que esse homem quer sobreviver a isso tudo? A primeira questão que me veio à mente foi a questão da família. Eu também já estava muito tempo longe da minha mulher e dos meus filhos. Acho que tudo isso contribuiu.”

David Trejos, Álex González e Leandro Firmino

A dinâmica criada entre os três atores é de louvar. Quem assistir aos episódios criará uma empatia com os ocupantes do submersível, vendo cada um como algo real. A fluidez e as trocas entre as personagens mostra mais do que um texto bem escrito. São estes três talentos quem consegue alcançar este patamar de performance capaz de comunicar com o público tão intensamente que quase desejamos que consigam escapar.

“Se alguém quer um êxito, pode ir buscar atores vencedores de óscares, juntar todos e de repente não encaixam” diz Álex González “Outras vezes, de forma mágica como se passou aqui, um ator brasileiro, um colombiano e um espanhol, cada um com o seu mundo, três instrumentos diferentes que se juntam e fazem música. É uma magia.”

O terceiro episódio é um dos mais difíceis da série. Neste, praticamente passado dentro do submarino, a responsabilidade de contar a história recai sobre os três atores. “Desde o primeiro ensaio, havia uma química entre os três que funcionava muito bem e que entre os personagens também funcionava”, diz González, “os dias passavam, ficamos mais cansados. Não dava para parar nem para tirar o fato porque o microfone está lá dentro. Chega o dia 3, o dia 4 e há ataques de ansiedade, sentir-se um pouco claustrofóbico, com muito calor [risos] mas tudo funcionou a favor da história. Sentimos um pouco do que foi para aquelas três pessoas estar dentro do submarino e conseguimos trazer isso para a história”.

Para David Trejos “foi um trabalho de equipa, creio que a generosidade de cada um fez com que os dias mais difíceis dentro do submarino funcionassem muito bem. Todos trabalhamos em prol da história. Éramos três, mais outras seis pessoas, dentro do submarino, num espaço de dois metros por seis. Mal cabíamos, e tínhamos que fazer malabarismos para passar pela equipa de filmagem ou pela da captação de som (risos). Todos estavam a dar o melhor de si. ”Continua” o calor era impressionante que só queríamos sair e apanhar um pouco de ar fresco. De fato, na cena em que abrem a comporta para respirar, [risos] esse momento foi de verdade um alívio. Podemos viver aqueles momentos e contar a história.”

David Trejos no papel de Angelito

As filmagens dentro do submersível “foram bem difíceis” segundo Leandro Firmino ”Todos os dias saía de lá com o corpo dorido, com uma dor aqui e outra ali. Agora, no início foi bem mais difícil ainda até você entender o espaço. No início foi difícil, mas fomos ajustando. Foi um trabalho bem desafiador. Nunca tive um trabalho assim com tanto desgaste emocional e físico. Foi um trabalho bem difícil.”

Na peugada do semi-submersível estava a polícia portuguesa e a guarda civil espanhola. Do lado português estão várias atrizes e atores, entre eles Lúcia Moniz com quem também tivemos o prazer de conversar.

“Quando fui convidada para este papel, eu tinha uma ideia vaga. Fiquei espantada com até onde se vai com a ambição, com a ganância e com a sobrevivência também, que faz cair nestas armadilhas… a sobrevivência em troco de dinheiro mas com risco de vida ao mesmo tempo”.

Segundo a atriz, “[a Carmo] é uma mulher muito focada na profissão, e estes desafios estimulam-na ainda mais na sua função profissional. Não se sabe absolutamente nada sobre a sua vida pessoal, é a procura das pistas, de resolver o caso. Na parceria com o Ortiz, interpretado pelo Xosé Barato, é visível que é uma parceria recorrente, que confiam um no outro e têm uma dinâmica própria. Ela tem um rigor profissional, é muito exigente com ela própria. Há um grau de exigência máximo. E há uma frieza que foi um desafio bom para mim. “

A inspetora Carmo é uma personagem sobre quem não nos dão a conhecer nada da sua história. No entanto, as subtilezas do trabalho de Lúcia Moniz dão dimensão a esta personagem conseguindo transmitir o seu profissionalismo e a intolerância a erros ou a atitudes derrotistas. Passa por muitas dificuldades e passa pelo contínuo escrutínio de que as suas ações são alvo. Sendo uma personagem criada para a história, a atriz não teve os rigores de cumprir os detalhes da veracidade. “Consegui ter espaço para criar uma inspetora que fez este trabalho”.

Xosé Barato e Lúcia Moniz

Para a atriz, o trabalho concretizado passou muito pela “forma como está costurado. O público fica com uma empatia gigante pelo Nando, a torcer que ele se safe e que nada de mal lhe aconteça. Isso é muito humano […] Gosto muito dessa forma de envolver o público e acho que o público também gosta disso. Não gosta das coisas oferecidas, tão preto no branco”. As condições financeiras que a produção tinha ao seu dispor também chamaram a atenção da Lúcia Moniz: “quando fomos visitar o estúdio foi incrível, ver aquilo e percebemos o quanto a produção tem condições. Quando entrámos e vi o submarino em cima de um sistema hidráulico e uma piscina… Foi oh Meu Deus!

Além de todo o trabalho, também foi um tempo de partilha entre a equipa. Lúcia Moniz, Leandro e David partilhavam as horas de folga: “o Leandro e o David eram os meus companheiros nas folgas. Eu fazia-os andar quilómetros.”

Para os atores espanhóis foi a primeira vez a trabalhar com uma equipa portuguesa. Para Álex González foi uma experiência gratificante “Dei-me conta que em Espanha estamos demasiado stressados gratuitamente. Aprendi com os portugueses que era possível haver um ambiente mais relaxado, mais amável e dentro dessa amabilidade há menos stress e sai tudo muito melhor. Este era um toque que a filmagem precisava […] eu já era muito fã da Lúcia e do Nuno Lopes, de quem já tinha visto alguns dos seus trabalhos. O personagem genial de Nuno Lopes em White Lines, por exemplo. Pude trabalhar com ele e foi um prazer.

Álex González e Nuno Lopes

David admira o trabalho de Nuno Lopes em White Lines e de Lúcia Moniz em O Amor Acontece. Foi bom conhecer ambos, pela sua excelência profissional, mas também pelas pessoas que são: “já tinha trabalhado com estrelas, que tinham egos insuportáveis, e ambos são grandes atores mas acima de tudo grandes seres humanos disponíveis para partilhar e colaborar”.Operação Maré Negra foi uma agradável surpresa. É genuinamente humano e consegue ao mesmo tempo ser terrível por mostrar um lado da nossa sociedade que está tão perto de todos nós e se torna quase invisível. É sem dúvida uma das melhores estreias deste primeiro trimestre. Os quatro episódios já estão disponíveis na Prime Video, e chegarão à RTP1 a partir de 14 de Março