Quando a música pop conquista

Lembram-se dos filmes que ficaram conhecidos não só pela sua história e atores, mas pela fantástica banda sonora?

Há, mesmo, muito tempo que não tinha uma experiência tão completa, onde a música nos envolve de uma maneira que queremos ouvir, e ouvir novamente… e ouvir mais a seguir.

A BANDA SONORA

A poderosa banda sonora de Cyrano, gravada nos Abbey Road Studios, foi escrita e composta por Bryce e Aaron Dessner da banda indie rock norte-americana vencedora de Grammys, The National, com letras de Matt Berninger e da sua mulher compositora (e também produtora) Carin Besser. A banda sonora já está disponível nas plataformas digitais e em formato físico nas lojas em CD e Vinil. Conta com participações vocais do elenco: Peter Dinklage, Haley Bennett, Kelvin Harrison Jr. e Glen Hansard, com música da London Contemporary Orchestra e do célebre pianista Víkingur Ólafsson. Além destas faixas, temos ainda em estreia o novo single desta banda Somebody Desperate.

https://youtu.be/EpuImNBJXTE
Peter Diklage com os The National no The Colbert Show.

Agora que temos a música como pano de fundo, podemos falar sobre o filme no seu todo.

O filme recria o conto intemporal de um triângulo amoroso comovente. Um homem à frente do seu tempo, Cyrano de Bergerac (Peter Dinklage, A Guerra dos Tronos) deslumbra com ferozes jogos de palavras. Convencido de que a sua aparência o torna indigno do amor da luminosa Roxanne (Haley Bennett, Os Sete Magníficos), Cyrano esconde os seus sentimentos por esta – e Roxanne apaixona-se, à primeira vista, por Christian (Kelvin Harrison Jr., Luce). Porém Christian não é dotado de nenhum dom poético. Cyrano decide ajudar Christian, a escrever as suas cartas para Roxanne. Nem tudo correrá bem, e há que enfrentar a realidade ou perder-se para sempre.

Do realizador Joe Wright (Orgulho e Preconceito, Expiação, Anna Karenina e A Hora Mais Negra) e vencedor de dois BAFTA, temos a adaptação para cinema por Erica Schmidt, da famosa obra do dramaturgo Edmund Rostand, Cyrano de Bergerac. Esta versão conta ainda com a coragem de se apresentar como um musical, com temas com sonoridade atual, criados para incorporar esta história. Refiro coragem porque, para um musical ter sucesso, terá de oferecer um ou mais temas que perdurarão após o lançamento do filme e serão o gatilho para acionar a memória para o mesmo. Cyrano tem todos os componentes para ser um musical de sucesso, digno de se querer ver (e ouvir) repetidamente.

Além disso, os momentos musicais são contrabalançados pelo diálogo entre os personagens, não saturando demasiado o espectador. De salientar ainda o fantástico trabalho coreográfico, que transforma poeticamente um simples amassar do pão ou as lutas de rua entre rivais em maravilhosas cenas de dança, coordenadas para nos oferecerem um espectáculo visual digno da Broadway.

Joe Wright tem a sabedoria de escolher trabalhar com excelentes atores com uma aparência comum, sem grandes dotes artísticos para o canto (com exceção de Haley Bennett), quebrando os estereótipos e elevando a mensagem que quer transmitir com este filme. Mais que o triângulo amoroso, e as situações embaraçosas e caricatas que daí possam resultar, Cyrano evidencia a beleza interior do ser humano. A alma em detrimento do aspecto físico.

Ao contrário de filmes anteriores inspirados na obra, o humor não está muito presente neste Cyrano. E ainda bem. Peter Dinklage tem uma performance cativante, emotiva e enquadra-se perfeitamente no papel do personagem principal. Outra novidade prende-se com o facto deste Cyrano não ter o nariz grande, mas ser anão. É absolutamente fabuloso e emocionante ver Dinklage num papel dramático e musical.

Cyrano já recebeu vários prémios internacionais para Melhor Ator, Melhor Filme e Melhor Banda Sonora. Recentemente foi nomeado para os Óscars 2022 na categoria de Melhor Guarda Roupa. Pena não terem colocado Dinklage na corrida ao Óscar de Melhor Ator, nem considerado o filme para candidato ao Óscar de Melhor Filme.

Cyrano deve ser visto num grande écran, mesmo que não sejam adeptos de musicais nem de filmes de época. Este filme vai mais além, pela sua mensagem, pelas suas interpretações e pela sua música.

Estreia nos cinemas nacionais já a 24 de fevereiro. A não perder!

Nota: 9/10